A pergunta chega quase sempre na primeira aula, e quase sempre com um pedido implícito de absolvição: quanto tempo por dia eu preciso estudar? A resposta que damos costuma surpreender. Vinte minutos bem usados valem mais do que duas horas dispersas no domingo.
A razão é simples e tem a ver com a forma como o corpo aprende um gesto. Tocar um instrumento é memória muscular antes de ser qualquer outra coisa, e memória muscular se constrói por repetição espaçada. Trinta minutos por dia, cinco dias por semana, produzem um resultado que três horas de sábado não alcançam.
O concertista sabe disso melhor do que ninguém. A rotina de quem vive de tocar não é feita de maratonas, e sim de blocos curtos e muito específicos, separados por descanso real. O que muda entre ele e o aluno adulto que estuda depois do trabalho não é a quantidade de tempo, é a precisão do que se faz dentro dele.
Estudar não é tocar a peça inteira do começo ao fim. Isso é ensaiar. Estudar é isolar os quatro compassos que não saem, entender por que não saem, e trabalhar aquele trecho em andamento reduzido até que ele deixe de exigir atenção. Um aluno que faz isso por vinte minutos avança mais do que um que toca a peça inteira sete vezes seguidas.
Nas nossas aulas, o plano de estudo da semana sai combinado no fim de cada encontro, com o trecho, o andamento e o número de repetições definidos. O aluno não sai da sala se perguntando o que fazer em casa, e o professor abre a aula seguinte sabendo exatamente onde a semana travou.
Se a sua agenda comporta quinze minutos por dia e nada mais, comece por quinze. O que não funciona é esperar o dia em que sobrará uma hora, porque esse dia raramente chega, e enquanto ele não chega o instrumento fica fechado.