Ler partitura sem decorar: por onde começar

Aula de piano a quatro maos

Quase todo aluno adulto que chega ao studio já tocou alguma coisa de ouvido, e quase todo aluno adulto tem a mesma queixa: consigo tirar a música, mas não consigo ler. É um problema real e tem solução, só que a solução não é a que a maioria tenta.

A tentativa mais comum é decorar. O aluno olha a partitura, descobre que a primeira nota é um sol, encontra o sol no teclado e memoriza a sequência de movimentos. Funciona por três compassos e desmonta no quarto. Decorar não é ler, é adiar a leitura.

Ler é associar direto: esta bolinha nesta linha corresponde a esta tecla, sem passar pelo nome da nota. É o mesmo salto que a criança dá quando para de soletrar. E, como na alfabetização, ele vem de exposição frequente a material fácil, não de esforço concentrado sobre material difícil.

Por isso o exercício que mais funciona é o mais modesto: cinco minutos por dia lendo uma peça nova e muito abaixo do seu nível, uma única vez, sem corrigir os erros e sem repetir. O objetivo não é tocar bem, é passar os olhos por muita notação. Uma peça nova por dia, todo dia, muda a leitura em poucas semanas.

O segundo hábito é olhar para a frente. Quem lê bem está sempre um compasso adiante do que as mãos estão tocando. Dá para treinar isso deliberadamente: cubra com um cartão o compasso que você está tocando, forçando o olho a se antecipar. É desconfortável nos primeiros dias e vira automático depois.

O terceiro é parar de olhar para as mãos. A geografia do teclado se aprende pelo tato, com os grupos de duas e três teclas pretas servindo de referência. Enquanto o olhar sobe e desce entre a partitura e os dedos, a leitura não engata.

Nas aulas trabalhamos leitura em todo encontro, mesmo com quem está preparando repertório avançado, sempre nesse formato curto. É a parte da aula que o aluno menos percebe e a que mais muda o que ele consegue fazer sozinho em casa.

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