Como sair das dívidas: um plano em 5 passos

Casal colando bilhetes coloridos em fila na porta do armário da cozinha, planejando juntos
Imagem ilustrativa.

Em 30 segundos

  • O plano tem cinco passos: listar as dívidas, cortar o que faz crescer, decidir a ordem, negociar e manter.
  • Cheque especial tem teto de 8% ao mês e o rotativo do cartão não pode cobrar mais que o valor original em juros.
  • Primeiro vêm moradia, água, luz e dívidas com bem em garantia; depois, as de juros mais altos.
  • Acordo só com parcela que cabe na sobra real do mês: acordo quebrado devolve o nome ao cadastro.
  • Se as parcelas mínimas passam da renda, a repactuação por superendividamento pode ser pedida no Procon ou na Justiça.

Como sair das dívidas: liste tudo o que você deve, pare o que faz a dívida crescer, pague primeiro o que tem juros mais altos ou ameaça um bem essencial, negocie o resto com parcelas que caibam na sobra real do mês e mantenha o plano até a última parcela. Não há atalho, mas há ordem, e a ordem certa encurta o caminho.

Quem tem várias contas atrasadas costuma tentar resolver tudo ao mesmo tempo, ou a mais barulhenta primeiro, e acaba sem dinheiro para nenhuma. O plano abaixo tem cinco passos, cada um com o que fazer, a conta que decide e os direitos que a lei dá em cada etapa. Os números do exemplo são ilustrativos; troque pelos seus.

Estou com dívidas, o que fazer primeiro?

O primeiro passo é saber exatamente quanto você deve, para quem e com quais juros, antes de pagar ou negociar qualquer coisa. Sem a lista completa, o dinheiro vai para quem cobra mais alto, e não para a dívida mais cara. Isso leva uma tarde e usa canais oficiais gratuitos.

Junte as faturas, os carnês e os contratos, e confira o que está registrado no seu CPF. O SPC Brasil oferece consulta gratuita do próprio nome pelo aplicativo SPC Consumidor; a Serasa permite consultar gratuitamente as dívidas no CPF pelo site, aplicativo ou WhatsApp; e o Registrato, do Banco Central, mostra de graça os empréstimos e financiamentos com bancos, inclusive os que estão em dia. O caminho de cada consulta está em como saber se meu nome está sujo e em Registrato, o relatório do Banco Central.

Você não está sozinho nisso. Em agosto de 2026, o indicador da CNDL e do SPC Brasil contava 73,71 milhões de pessoas negativadas no país, e 28,77% delas deviam até R$ 500. Os números completos estão em quantos brasileiros têm nome sujo.

Passo 1: monte a lista com saldo, juros e situação

A lista de dívidas precisa de cinco colunas: credor, saldo de hoje, juros ao mês (ou o encargo que está no contrato), parcela atual e situação (em dia, atrasada, negativada, com bem em garantia). Veja um exemplo com números redondos:

Exemplo ilustrativo de lista de dívidas de uma família com renda líquida de R$ 3.000
DívidaSaldoEncargoSituação
Cheque especialR$ 1.000Até 8% ao mês (teto)Em uso todo mês
Cartão de crédito (rotativo)R$ 2.000Juros e encargos limitados ao valor originalPagando o mínimo
Crediário de lojaR$ 600 (3 parcelas de R$ 200)Multa de até 2% e juros do contratoAtrasado e negativado
Financiamento da motoR$ 6.000Juros do contratoParcela de R$ 250, uma atrasada

As regras da tabela têm fonte: os juros do cheque especial estão limitados a 8% ao mês pela Resolução CMN 4.765/2019; no rotativo e no parcelamento da fatura, juros e encargos somados não podem passar do valor original da dívida, pelo artigo 28 da Lei 14.690/2023; e no crediário a multa por atraso é de no máximo 2% da prestação, pelo artigo 52, §1º, do Código de Defesa do Consumidor. Uma planilha de dívidas pronta para copiar organiza essas colunas e calcula a ordem de pagamento.

Passo 2: corte o que faz a dívida crescer

Sair das dívidas começa por parar de criar dívida nova. Enquanto o cheque especial cobre o fim do mês e a fatura do cartão vira rotativo, cada real pago some nos juros. Três cortes resolvem a maior parte dos casos:

  • Cheque especial: peça ao banco para reduzir o limite ou trocar o saldo por um parcelamento com juros menores. Usar 8% ao mês sobre R$ 1.000 custa até R$ 80 por mês só de juros.
  • Cartão de crédito: pare de usar o cartão que está no rotativo e peça o parcelamento da fatura. O guia de renegociar dívida de cartão de crédito mostra como.
  • Compras parceladas novas: nenhum parcelamento novo até a lista estar sob controle, nem no crediário, nem no carnê.

Depois, refaça o orçamento com os gastos essenciais (moradia, comida, luz, água, transporte, remédio) e calcule a sobra real. No exemplo, renda de R$ 3.000 e essenciais de R$ 2.400 deixam R$ 600 por mês para as dívidas. O método está em orçamento familiar.

Passo 3: decida a ordem de pagamento

A ordem de pagamento segue o tamanho do estrago, e não o tamanho da cobrança. Primeiro vêm as contas que mantêm a casa funcionando: aluguel, água e luz. O corte de serviço essencial por falta de pagamento depende de aviso prévio, pela Lei 8.987/1995, mas o aviso não impede o corte. Depois, as dívidas com bem em garantia, como a moto do exemplo, porque o atraso pode levar à perda do bem; o caso do carro está em financiamento de carro atrasado.

Com o essencial garantido, o resto da sobra vai para as dívidas por um destes dois métodos:

Dois métodos para ordenar as dívidas, com a lista do exemplo
MétodoOrdem no exemploVantagemCuidado
Juros mais altos primeiroCheque especial, cartão, crediárioPaga menos juros no totalA primeira vitória pode demorar
Menor saldo primeiroCrediário, cheque especial, cartãoQuita uma dívida rápido e dá ânimoPode custar mais juros no caminho

Os dois funcionam se você não abandonar o plano. Na dúvida, combine: quite primeiro a dívida pequena que já está negativada e pode render desconto, e mande o resto para a dívida de juros mais altos. O critério detalhado está em quais dívidas pagar primeiro.

Passo 4: negocie cada dívida no canal certo

Negociar funciona quando a proposta nasce da sua sobra, e não da sugestão do credor. Com R$ 600 por mês, o exemplo poderia ficar assim: R$ 250 para a parcela da moto, que tem o bem em garantia; R$ 120 para o cheque especial parcelado; R$ 180 para a fatura do cartão parcelada; e R$ 50 guardados até dar para propor à loja do crediário um pagamento à vista com desconto. Cada acordo pede a proposta por escrito com o total a pagar, e o roteiro está em como negociar dívidas.

O canal muda com o credor:

  • Bancos e cartão: canais oficiais do banco e o Consumidor.gov.br, serviço público e gratuito que só recebe reclamação de empresas cadastradas.
  • Crediário, carnê e cartão de loja do comércio local: a própria loja ou o Meu Nome no Azul, portal de autonegociação que mostra as dívidas que lojas credenciadas por associações comerciais e CDLs registraram e as propostas delas. Veja como funciona a negociação com as lojas.
  • Dívida com desconto grande: antes de aceitar, confira se o desconto compensa, em desconto para quitar dívida.

Nos acordos, combine por escrito quando o credor vai pedir a baixa do registro. Paga a dívida inteira, ele tem até 5 dias úteis para isso, pela Súmula 548 do STJ; no acordo parcelado, vale o que o termo prevê. Os programas federais estão em transição: o Desenrola Brasil 3.0 foi criado em 25/09/2026, mas em 13/10/2026 ainda dependia de regulamentação e não recebia pedidos de consumidores, como explica o texto sobre o Desenrola 3.0.

Como sair das dívidas sem dinheiro?

Sem dinheiro sobrando, sair das dívidas começa por proteger o essencial e parar o crescimento, e não por fechar acordos que você não vai conseguir pagar. Acordo que quebra no segundo mês devolve o nome ao cadastro e costuma levar o desconto junto. Enquanto a renda não volta, priorize moradia, comida e contas de serviço essencial.

Algumas saídas reais quando a sobra é zero: vender um bem que não faz falta, separar uma renda extra só para as dívidas, usar o 13º salário para pagar dívidas com desconto à vista e negociar depois, com a renda recomposta. Pegar um empréstimo novo para pagar os antigos só faz sentido se os juros forem menores e a parcela couber, como mostra o texto sobre empréstimo para pagar dívidas. Mais caminhos estão em pagar dívidas sem dinheiro e, para quem perdeu o emprego, em desempregado com dívidas.

Quando a soma das parcelas mínimas passa da renda, a lei tem um caminho próprio: a repactuação por superendividamento. O artigo 104-A do CDC prevê um plano de até 5 anos com todos os credores juntos, preservando o mínimo existencial, que é de R$ 600 por mês pelo Decreto 11.150/2022. A audiência pode acontecer no Procon, segundo o Conselho Nacional de Justiça. A explicação completa está em lei do superendividamento.

Dá para sair das dívidas rápido?

Sair das dívidas rápido só é possível com dinheiro à vista para quitar com desconto; sem isso, o prazo é o das parcelas que cabem no mês. Desconfie de quem promete limpar o nome em dias sem pagar a dívida: a Serasa alerta que não existem atalhos milagrosos.

Esquemas de "limpa nome" com liminar já foram investigados pelo Conselho Nacional de Justiça, e a dívida continuava existindo; os sinais de golpe estão em limpa nome com liminar. O atalho legítimo é outro: concentrar a sobra numa dívida de cada vez e, quando ela acabar, mandar a mesma parcela para a próxima da lista. No exemplo, quitado o cheque especial, os R$ 120 da parcela dele passam a reforçar o pagamento do cartão.

Passo 5: mantenha o plano e não volte para o vermelho

Manter o plano é a parte mais longa, e é onde a maioria escorrega. Três hábitos seguram o resultado:

  1. Parcela do acordo em dia, sempre. Se uma parcela atrasar, o credor pode negativar de novo; o que fazer nesse caso está em atrasei a parcela do acordo.
  2. Quitou uma dívida, mande a parcela dela para a próxima da lista, em vez de devolver o dinheiro ao orçamento.
  3. Guarde um pouco todo mês, mesmo R$ 50, para que o próximo imprevisto não vire cheque especial.

Pagar em dia também alimenta o seu histórico no cadastro positivo, que os birôs usam no cálculo do score, sem prazo garantido de melhora. Os hábitos para não voltar ao aperto estão em como não voltar a se endividar. Para começar pelo comércio local, a consulta de dívidas pelo CPF mostra o que as lojas credenciadas registraram e as propostas que elas oferecem. Se o seu caso envolve cobrança abusiva ou dívida que você não reconhece, o Procon e a Defensoria Pública orientam sem custo.

Perguntas frequentes

Como acabar com as dívidas de vez?

Acabar com as dívidas de vez exige duas coisas ao mesmo tempo: quitar o que existe e parar de criar dívida nova. Corte o uso do cheque especial e do rotativo, pague uma dívida por vez com toda a sobra do mês e guarde um pouco para imprevistos, para que o próximo aperto não volte para o cartão.

Existe planilha para sair das dívidas?

Existe, e uma planilha simples já resolve: colunas com credor, saldo, juros ao mês, parcela e situação de cada dívida. Ordenada pelos juros ou pelo saldo, ela mostra qual dívida pagar primeiro. O modelo pronto para copiar no Excel ou no Google Planilhas está no guia de planilha de dívidas.

Como sair das dívidas urgente quando o nome já está sujo?

Com o nome já negativado, comece pelas dívidas que ameaçam algo essencial, como moradia e bens em garantia, e só depois pelas negativadas, que costumam render desconto à vista. Consulte o CPF de graça no SPC Brasil e na Serasa para ver a lista completa antes de negociar qualquer acordo.

Vale a pena pegar empréstimo para sair das dívidas?

Só vale se os juros do empréstimo forem menores que os das dívidas que ele vai quitar e se a parcela couber com folga no mês. Trocar o cheque especial, que pode chegar a 8% ao mês, por um crédito mais barato pode ajudar. Pegar empréstimo e continuar usando o limite piora a situação.

Existe programa do governo para sair das dívidas?

Em 13/10/2026 não havia programa federal aberto ao consumidor. O Desenrola Brasil 3.0 foi criado por medida provisória em 25/09/2026, mas ainda dependia de regulamentação do Ministério da Fazenda. Desconfie de quem cobra para inscrever você em programa do governo e acompanhe as informações oficiais.

Quanto tempo leva para sair das dívidas?

Depende do total devido e da sobra do mês, e ninguém pode garantir um prazo. A conta é simples: some os acordos possíveis e veja em quantos meses a sobra quita cada um. Quem consegue pagar à vista com desconto encurta o caminho; quem parcela precisa manter as parcelas em dia até a última.

Publicado em Organizar e recomeçar

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