Negociação e acordo
Como negociar dívidas: passo a passo para fechar um bom acordo
Em 30 segundos
- Antes de negociar, levante quatro números: valor original, valor cobrado, parcela máxima que cabe no mês e total do acordo.
- No crediário, a multa por atraso é de no máximo 2% da prestação; juros seguem o contrato ou a taxa legal do Código Civil.
- Peça a proposta por escrito com juros, parcelas e soma total (CDC, art. 52) e a data em que a credora pedirá a baixa.
- Parcela que cabe no orçamento vale mais que desconto maior: acordo quebrado pode levar a nova negativação.
- O mutirão da Febraban de 2026 vai de 2 a 30 de novembro e vale só para dívidas com bancos e financeiras.
Para saber como negociar dívidas, comece pelos números, antes de falar com o credor: o valor original, o que pode ser cobrado a mais (no crediário, multa de no máximo 2% e os juros do contrato), quanto cabe no seu mês e o total que você vai pagar no fim. Com isso em mãos, peça a proposta por escrito e aceite só o que consegue cumprir até a última parcela.
O acordo que dá errado quase sempre falha no mesmo ponto: a parcela foi escolhida pela vontade de resolver logo, e não pela sobra real do orçamento. O roteiro abaixo inverte a ordem. Primeiro a conta, depois a conversa, por último a assinatura, com o que a lei garante em cada etapa e onde negociar cada tipo de dívida.
Os quatro números que decidem o acordo, antes de qualquer ligação
Um bom acordo depende de quatro números que você levanta sozinho, antes de falar com a empresa. Sem eles, quem define a parcela é o credor:
- O valor original da dívida, sem juros e multa: o que você comprou ou pegou emprestado e deixou de pagar.
- O valor cobrado hoje, com a conta de como ele chegou lá (multa, juros, correção).
- A parcela máxima que cabe no mês depois das contas essenciais.
- O total do acordo: parcela vezes número de parcelas, mais a entrada, se houver.
A parcela máxima é o número mais importante e o mais ignorado. Veja uma conta de exemplo, com números redondos: renda de R$ 2.500, gastos essenciais de R$ 2.050 (aluguel, comida, luz, água, transporte, remédio). Sobram R$ 450. Comprometer tudo deixa você sem margem para um imprevisto; uma parcela de até R$ 300 preserva uma folga de R$ 150. Para montar esse retrato, a planilha de dívidas e o guia de orçamento familiar ajudam. Com mais de uma dívida, a ordem de pagamento está em quais dívidas pagar primeiro.
A multa tem teto de 2% e os juros seguem o contrato
Nos contratos com crédito ao consumidor, como crediário, carnê e cartão de loja, a multa por atraso é de no máximo 2% da prestação, pelo artigo 52, §1º, do Código de Defesa do Consumidor. Os juros de mora seguem o contrato; sem taxa combinada, vale a taxa legal do Código Civil, que é a Selic menos o IPCA.
Com isso, dá para conferir se o valor cobrado faz sentido. Três parcelas de crediário de R$ 200 em atraso somam R$ 600 de principal, e a multa máxima é de R$ 12, ou 2% de cada parcela. Se a cobrança vier com valor muito acima disso mais os juros previstos no contrato, peça a memória de cálculo antes de negociar. No cartão de crédito, os juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não podem passar do valor original da dívida, pelo artigo 28 da Lei 14.690/2023. Os detalhes estão em juros de dívida atrasada e em renegociar dívida de cartão de crédito.
Como negociar uma dívida sem juros?
Negociar uma dívida sem juros é possível quando o credor aceita receber o valor original, e isso acontece mais no pagamento à vista e em dívidas antigas. Não existe direito a zerar juros, mas o CDC garante, no artigo 52, §2º, a redução proporcional dos juros e acréscimos quando você antecipa o pagamento, total ou parcial.
Na prática, o pedido funciona assim: "consigo pagar à vista o valor original da compra; vocês aceitam?". Se a resposta for não, a contraproposta é um meio-termo com prazo curto. Compare sempre o total, e não só a parcela:
| Proposta | Parcela | Total pago | Desconto sobre os R$ 2.000 |
|---|---|---|---|
| À vista, valor original | Pagamento único | R$ 1.200 | 40% |
| 4 parcelas | R$ 350 | R$ 1.400 | 30% |
| 10 parcelas | R$ 180 | R$ 1.800 | 10% |
A proposta de 10 parcelas cabe no orçamento do exemplo anterior; a de 4 parcelas, não. Nesse caso, a melhor escolha é a de 10 parcelas, mesmo custando R$ 600 a mais que a quitação à vista, porque um acordo quebrado devolve o nome ao cadastro e costuma levar o desconto junto. Como pedir um abatimento maior está em desconto para quitar dívida, e como parcelar sem apertar o mês, em parcelar dívida atrasada.
Passo a passo para fechar o acordo
Com os números prontos, a negociação segue uma ordem simples. Cada passo protege você de um erro comum:
- Confirme a dívida. Veja quem é a credora, o valor e a data de vencimento. Dívida que você não reconhece se contesta, não se negocia.
- Confira a idade da dívida. Se o vencimento passou de 5 anos, o registro não pode estar no cadastro; o prazo da cobrança depende do tipo de dívida. Pelo artigo 202 do Código Civil, um ato seu que reconheça a dívida interrompe a prescrição uma única vez e o prazo recomeça; e quem paga dívida já prescrita não pode pedir o dinheiro de volta (art. 882). Leia dívida caduca antes de assumir parcelas de uma dívida muito antiga.
- Peça a proposta por escrito. Pelo artigo 52 do CDC, no crédito ao consumidor o fornecedor informa antes o preço, os juros de mora e a taxa efetiva anual, os acréscimos, o número e a periodicidade das parcelas e a soma total a pagar.
- Faça a contraproposta com base na sua parcela máxima, e não na que a empresa sugeriu. O roteiro de proposta de acordo de dívida traz exemplos de texto.
- Pergunte quando a credora vai pedir a baixa do registro e peça que isso fique escrito.
- Confira o boleto. Pelo artigo 42-A do CDC, todo documento de cobrança traz nome, endereço e CPF ou CNPJ do fornecedor. Beneficiário diferente da credora é sinal de golpe do boleto falso de acordo.
- Pague e guarde o comprovante. Pago tudo, peça a quitação: pelos artigos 319 e 320 do Código Civil, quem paga tem direito a quitação regular, com o valor, o nome do devedor, a data e a assinatura do credor. Veja comprovante de quitação de dívida.
Na negociação, ninguém pode pressionar você a fechar na hora. Na oferta de crédito, o artigo 54-C, IV, do CDC proíbe assediar ou pressionar o consumidor, principalmente idoso, analfabeto, doente ou em vulnerabilidade agravada. E na cobrança, o artigo 42 proíbe expor o consumidor ao ridículo ou constranger; o que fazer nesses casos está em cobrança abusiva.
Termo de negociação de dívida: o que precisa estar escrito
O termo de negociação é o documento que prova o que foi combinado, e ele vale tanto quanto o que está escrito nele. Antes de pagar a primeira parcela ou a entrada, confira se o termo, o e-mail ou a tela do acordo trazem:
- nome e CNPJ da empresa credora;
- a dívida de origem, com o valor original e o valor cobrado antes do desconto;
- o valor total do acordo, o valor e o número das parcelas e as datas de vencimento;
- o que acontece se uma parcela atrasar;
- quando a credora vai pedir a baixa da negativação;
- a quitação da dívida inteira depois da última parcela.
Sobre a baixa: paga a dívida inteira, a credora tem até 5 dias úteis para pedir a exclusão, pela Súmula 548 do STJ. No acordo parcelado, não há tese vinculante que obrigue a baixa depois da primeira parcela; a Serasa informa que isso ocorre "em alguns casos". Vale o que está no termo. Um modelo pronto está em modelo de acordo de dívida, o checklist final em o que conferir antes de aceitar um acordo, e os prazos em prazo para limpar o nome após o pagamento.
Qual o melhor mês para negociar dívidas com bancos?
Não existe um mês oficial melhor para negociar dívidas com bancos. O que existe são campanhas com data marcada, em que os bancos oferecem condições especiais. Em 2026, o Mutirão Nacional de Negociação e Orientação Financeira acontece de 2 a 30 de novembro, segundo a Febraban, e vale só para dívidas com bancos e financeiras.
Segundo a página do mutirão no Meu Bolso em Dia, iniciativa de educação financeira da Febraban, a campanha é feita com o Banco Central, a Senacon e os Procons. Entram cartão, cheque especial, empréstimo pessoal e consignado; ficam de fora financiamentos com bem em garantia, como carro e imóvel, e dívidas prescritas. A negociação é feita nos canais do próprio banco ou no Consumidor.gov.br. Para ver as dívidas bancárias antes, o Registrato, do Banco Central, é gratuito.
Os programas federais estão em transição. O Novo Desenrola terminou em 31/08/2026, e o Desenrola Brasil 3.0, criado pela Medida Provisória 1.393/2026, ainda dependia de regulamentação do Ministério da Fazenda em 13/10/2026 e não estava aberto ao consumidor. Desconfie de quem pede pagamento para "inscrever você" no programa; o andamento oficial está em Desenrola 3.0, e as campanhas do varejo, em feirão limpa nome.
Onde negociar cada tipo de dívida
O lugar certo para negociar depende de quem é o credor hoje. A tabela resume os caminhos oficiais:
| Dívida | Onde negociar |
|---|---|
| Banco, cartão e financeira | Canais oficiais do banco, Consumidor.gov.br e, em novembro de 2026, o mutirão da Febraban |
| Crediário, carnê e cartão de loja do comércio local | A própria loja ou o canal das lojas credenciadas por associações comerciais e CDLs |
| Dívida negativada na Serasa | A credora ou a plataforma de acordos da Serasa, quando a credora oferece ali |
| Dívida vendida a outra empresa | A empresa que comprou a dívida, depois de conferir a cessão |
| Dívida em processo na Justiça | No próprio processo, com advogado ou Defensoria |
| Várias dívidas que já não cabem na renda | Repactuação por superendividamento, no Procon ou na Justiça |
Para dívidas com lojas do comércio local, o Meu Nome no Azul mostra as dívidas que lojas credenciadas por associações comerciais e CDLs registraram e as propostas que elas oferecem. Você entra com o CPF e uma senha, depois de um cadastro em duas etapas com código por SMS; os valores são os informados pela loja, e, na dúvida, vale falar com ela antes de pagar. A página como funciona o Meu Nome no Azul mostra o caminho do acordo, a consulta de dívidas pelo CPF é o ponto de partida e as cidades atendidas estão em onde negociar com lojas da sua cidade.
Quem procura um site de negociação de dívidas encontra os critérios para escolher em site para negociar dívidas e em negociar dívida pela internet; a Serasa lembra que plataformas seguras não cobram para mostrar as ofertas. Dívida vendida e dívida em processo têm guias próprios: compra de dívida e dívida ajuizada, como fazer acordo.
Quando negociar uma por uma não resolve
Se a soma das parcelas possíveis não cobre nem o mínimo de cada credor, negociar dívida por dívida só adia o problema. Para esse caso existe a repactuação do superendividamento: o artigo 104-A do CDC prevê um plano de até 5 anos com todos os credores juntos, preservando o mínimo existencial, que hoje é de R$ 600 por mês pelo Decreto 11.150/2022.
A própria página do mutirão da Febraban diz que a campanha não é indicada para quem está protegido pela Lei do Superendividamento. Desde 2024, as audiências de repactuação também podem ocorrer nos Procons, segundo o Conselho Nacional de Justiça. A explicação está em lei do superendividamento. Se, depois de fechar um acordo, uma parcela atrasar, a credora pode negativar de novo; o que fazer está em atrasei a parcela do acordo. Para o seu caso concreto, o Procon e a Defensoria Pública orientam sem custo.
Perguntas frequentes
É melhor negociar a dívida à vista ou parcelado?
À vista costuma render o maior desconto e o menor total, mas só vale se o dinheiro não fizer falta nas contas essenciais. Parcelado custa mais no fim, porém é a escolha certa quando a parcela cabe com folga no mês. O pior cenário é o acordo que atrasa e devolve o nome ao cadastro.
O que falar para negociar uma dívida?
Diga que quer resolver, informe quanto consegue pagar por mês ou à vista e peça a proposta por escrito, com o valor total, as parcelas, as datas e o momento da baixa da negativação. Não aceite na hora se a parcela passar do seu limite: peça um prazo para responder e faça uma contraproposta.
Posso negociar a dívida direto com a loja?
Pode, e muitas vezes é o caminho mais curto para dívidas de crediário, carnê ou cartão da loja. Peça o acordo por escrito, confira se o boleto está em nome da loja e pergunte quando ela vai pedir a baixa do registro. Lojas credenciadas por associações comerciais e CDLs também oferecem propostas por canais próprios.
Dívida negociada some do SPC na hora?
Não. Paga a dívida inteira, a credora tem até 5 dias úteis para pedir a exclusão, pela Súmula 548 do STJ. Em acordo parcelado, a baixa depende do que o acordo prevê: não há tese vinculante que obrigue a exclusão depois da primeira parcela. Por isso, peça que a data da baixa fique escrita no termo.
Negociar dívida antiga volta a contar o prazo?
Pode voltar. Pelo Código Civil, um ato do devedor que reconheça a dívida interrompe a prescrição uma única vez, e o prazo recomeça. Depois que a prescrição já se consumou, pagar a dívida é válido e não dá direito a pedir o dinheiro de volta. Antes de assumir parcelas de uma dívida muito antiga, confira o prazo.
Publicado em Negociação e acordo
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